Editorial

Após o término da Segunda Guerra Mundial, o mundo, aparentemente em paz, voltou-se para a necessidade de reconstruir suas cidades e seus sonhos, o que motivou a busca por utensílios que pudessem trazer melhorias ao modo de vida, facilitando o trabalho doméstico e levando maior comodidade às famílias.
Neste sentido, a indústria de bens de consumo procurou definir uma concepção futurista para seus produtos, que contemplasse às expectativas de progresso de uma população que se cansara das agruras do presente e queria direcionar seu olhar para o futuro.
O crescente interesse pelas novidades tecnológicas, pelas máquinas que pretendiam simplificar o trabalho diário, transformou-se em febre consumista. Todos queriam adquirir aqueles utensílios milagrosos.
Com a expansão da indústria, veio a necessidade de vender uma quantidade maior de produtos a uma quantidade maior de pessoas, o que fez surgir a necessidade de expansão do crédito.
Novas idéias sobre funcionalidade, praticidade e estética, aliadas a meios de produção cada vez mais eficientes, colocaram produtos altamente desejáveis ao alcance do cidadão comum, agora munido de crédito ilimitado.
Por outro lado, a concorrência e a oferta de produtos similares fizeram com que houvesse um maior empenho em conquistar o consumidor em potencial, promovendo, assim, grandes campanhas publicitárias, lançando mão do que havia de mais recente no pensamento em psicologia social e comportamental.
Vários conceitos, antes restritos a universos muito específicos, passaram a ser utilizados pelas empresas na concepção de peças publicitárias que pudessem alcançar o máximo rendimento, ou seja, tornar um produto irresistível.
Estava nascendo uma nova estética atrelada aos sonhos de consumo de diferentes parcelas da população e que tentava refletir seus desejos mais recônditos, espelhados em seus estilos de vida, identificando-se com determinados grupos ou segmentos sociais.
Procurou-se, na medida do possível, homogeneizar as preferências da população a um padrão básico que pudesse orientar a produção industrial, reduzindo os custos e uniformizando o gosto, em um procedimento conhecido como "processo de massificação".
As campanhas publicitárias passaram a ditar modas e a induzir hábitos, utilizando-se, para isso, de certo sincronismo subjetivo alcançado pela articulação iconográfica de signos valorizados por setores de interesse, e com o auxílio de conhecimentos adquiridos pela observação dos mecanismos sociais.
Deste modo, o processo evoluiu para uma noção estética que considera pertinente a setores diferenciados da sociedade características e necessidades que não podem ser reduzidas drasticamente a padrões inflexíveis. Antes, seria necessário encontrar pontos de articulação entre diversos elementos, que possibilitassem combinações de módulos, formando uma gama imensa de produtos, sem que o fator custo-benefício fosse prejudicado.
Em nossos dias, convivemos com conceitos estéticos muito complexos e com processos de produção muito elaborados que buscam satisfazer ao maior número de pessoas, das mais variadas camadas sociais, dos mais diferentes níveis de instrução, colocando produtos que representam os mais altos padrões de desenvolvimento tecnológico ao alcance de todos.
Esta aparente utopia consumista tem seu lado mais cruel na incapacidade de consumo de setores menos favorecidos, o que faz com que fiquem à margem de um ideal veiculado diariamente pelos meios de comunicação. A panacéia divulgada insistentemente coloca a felicidade como refém da capacidade de consumo, do poder de compra. Como conseqüência dessa mudança de enfoque, a realização pessoal somente seria possível através da satisfação plena de seus desejos de consumo. Esta satisfação, porém, jamais é alcançada, pois, sempre haverá um novo produto, um modelo atualizado, um relançamento ou qualquer outra novidade, capaz de levar à frustração o mais ávido consumidor. (Eduardo Thomé - 15/03/2009)

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