Editoriais Anteriores

Publicado em 03/04/2007

Vista de longe, a cidade é uma massa cinzenta uniforme, que vai se delineando e ganhando cores e arestas à medida que nos aproximamos. São monolitos acromáticos ou formas curvilíneas coloridas que surgem da exuberância de estilos de épocas diferentes. Fontes barrocas contracenam com fachadas neoclássicas, onde luzes de neon projetam sombras sobre estruturas modernistas. Jardins japoneses, iluminados por holofotes, encimam prédios inteligentes que ladeiam avenidas entrecortadas por trens subterrâneos. As grandes metrópoles traduzem o espírito do que foi chamado Pós-Modernidade: de tudo um pouco, ou melhor, de tudo muito. Milhôes de pessoas dividindo espaço e disputando vaga, ora no trânsito, ora no mercado de trabalho, ora numa fila de algum evento de entretenimento. O conceito de cidade mudou e a metrópole precisa, agora, de um superlativo novo ou de um novo prefixo: mega-aglomerações urbanas, chamadas megalópoles. O mundo pós-moderno é megalomaníaco. São mega-eventos esportivos, mega-eventos musicais, mega-eventos museológicos, ocorrendo em inúmeras megalópoles, em todos os continentes. Esteticamente, como entender esta profusão de formas e estilos da atualidade? Talvez como um colcha de retalhos. Esta é formada por uma grande quantidade de pequenos pedaços quadrangulares de diferentes tecidos, de cores e estampas variadas, que são unidos aleatoriamente, procurando formar um conjunto harmonioso. Deve ser observada em sua totalidade, à certa distância, o que forma um mosaico curioso, representativo da soma de suas partes, sem descaracterizá-las, porém, tornando-se mais do que elas. A globalização dá o tom das grandes metrópoles, o que equivale a dizer que quase todas as regiões acham-se representadas e interligadas, compartilhando informações, exercendo e recebendo influências em seus elementos culturais. À medida que nos atrevemos a mergulhar neste universo, vamos descobrindo uma infinidade de minúcias e características setoriais, que se descortinam, revelando enorme riqueza e diversidade. Algumas culturas tradicionais, no entanto, pretendem preservar-se em nichos, como que em uma redoma, isolando-se no tempo e no espaço. Transformam-se em vitrines de tradições exóticas, visitadas e admiradas por sua beleza excêntrica, tornando-se, assim, mais uma peça deste mosaico cosmopolita, chamado multiculturalismo. O próprio conceito de multiculturalismo é, evidentemente, contemporâneo. Considera a necessidade de dar voz e identidade a grupos de diferentes origens e etnias, cada qual guardando elementos de sua cultura original, reeditando tradições e assimilando a diversidade em doses homeopáticas. Numa óptica mais abrangente e generalista, o que observamos na prática dos sistemas de informação globalizados, é uma constante curiosidade e um refinado interesse em encontrar, nos lugares mais recônditos, elementos representativos das mais variadas culturas, retirá-los de seus contextos originais, evidenciá-los em eventos de mídia e pulverizá-los entre os ícones urbanos. Neste sentido, a velocidade com que esses elementos pontuais se sucedem, são abandonados ou substituídos, caracteriza-se como parte importante dessa mecânica, criando um fluxo ininterrupto de abandono e redescoberta, de superação e reedição, fruto de uma necessidade de substituição constante que estigmatiza a sociedade de consumo e movimenta a máquina dos setores produtivos. Talvez por isso, quando nos afastamos um pouco da dinâmica imagética da metrópole, com seus casarões coloridos, seus monolitos espelhados, suas praças, seus trajes, seus automóveis, temos uma sensação de vertigem que faz tudo girar, como no disco de Newton, onde as cores se sobrepõem, mesclando-se lentamente, perdendo-se umas nas outras, até que se neutralizam completamente. (Eduardo Thomé)


Publicado em 15/12/2005.

Ao acordar do sonho moderno, a humanidade se deparou com os escombros deixados pelo pesadelo de duas guerras mundiais.
Foi nesse cenário que nasceu a sociedade pós-moderna, sem a ingenuidade de outrora e recolhendo o legado de duas bombas atômicas.
Começava a Guerra Fria, que dividiria o mundo em duas partes. Passávamos a viver sob a ameaça das ogivas nucleares, agora alojadas em mísseis balísticos intercontinentais.
Os meios de comunicação, sem a função de trazer notícias do "front", voltavam-se à indústria do entretenimento e à divulgação de produtos de consumo.
A juventude, em busca de novos parâmentros, promovia uma verdadeira revolução nos hábitos e costumes, protestando contra as guerras, pregando o amor livre e negando a estrutura social.
Com o desenvolvimento de novas tecnologias, o que possibilitava a transferência de grande volume de dados, instantaneamente, tornando viáveis as transações financeiras, a transmissão de eventos e a divulgação de notícias no momento em que ocorriam, surgia um novo conceito de tempo real.
O alcance dos meios de comunicação de massa tornava-se ilimitado. A notícia fragmentada, filtrada pelo viés dos editores de conteúdo, chegava aos montes do Tibet, à Floresta Amazônica e às ilhas da Indonésia, com a mesma rapidez e intensidade.
O culto à velocidade, que no início do século XX fora chamado Futurismo, voltava a fazer parte da vida diária.
Na verdade, a velocidade representa uma das características mais marcantes da sociedade contemporânea. Tudo se renova e é descartado rapidamente, fazendo com que a busca por novidade recicle culturas tradicionais, pinçando elementos isolados de contextos diversos, revalidando conceitos estéticos anteriormente abandonados para, em seguida, substituí-los por novas tendências, numa lógica de mercado que propõe novos produtos em detrimento dos recém-adquiridos. Sendo assim, o estímulo ao consumo desenfreado, com a valorização das necessidades voláteis da adolescência, é plenamente justificável.
Na Arte, a necessidade de apropriação da realidade gera intervenções efêmeras, que buscam destacar-se do cotidiano, sobressair em meio aos monolitos estáticos que compõem as grandes metrópolis, criar reveses no olhar desatento dos transeuntes, enfim, interferir no processo de despersonificação e massificação.
No mais, diversos elementos compõem as manifestações artísticas da atualidade, mesclando-se, interpenetrando-se, de tal forma que não mais se enquadram em categorias estanques. A diversidade é o que predomina.
Basta tomarmos uma distância crítica, para observarmos um mosaico de pequenos grupos com elementos estéticos próprios, mas que compõem uma mescla eclética, com configuração genérica sortida, composta de fragmentos combinados, descontextualizados e atemporais.
Tal é a situação da estética atual: num mundo onde as informações se acumulam advindas das mais variadas fontes, representando as mais diversas culturas, sendo interpretadas pelos mais diferentes vieses, o ecletismo determina a lógica dominante.
Mesmo correndo o risco de cairmos em generalizações indesejáveis, podemos citar algumas características curiosas da Arte Contemporânea:

* Gosto pela novidade, culto ao novo. Necessidade de busca incessante por elementos inusitados, que possam compor o mosaico estético. Muitas vezes, o enfoque sobre o novo elemento é extremamente rápido, sendo substituído por outro, imediatamente. Esta estratégia de entretenimento, adotada pelos veículos de comunicação de massa, prossupõe a existência de manifestações distintas e simultâneas, que possam ser alvo de interesse.

** Multiculturalismo, diversidade cultural. Valorização de culturas exóticas, devidamente "pasteurizadas e homogeneizadas", para compor uma vitrine de profusão cultural, desconectada do contexto social original. Admite-se a existência de nichos culturais advindos de etnias diversas, mas submissos à cultura oficial.

*** Tendência Neo-Dada. Apresenta as tendências de insanidade manifestas e cultivadas nas obras dadaistas do início do século XX. O Dadaismo foi, sem dúvida, um movimento de cunho político. Protestava contra a insanidade de uma guerra mundial, alegando que a Arte não fazia sentido num mundo em guerra. As guerras continuaram e, até hoje, alimentam a indústria bélica, porém, exceção feita a alguns casos específicos, não representam o objeto de contestação, muitas vezes não identificado ou inexistente.

**** Proximidade aos sofistas. Algumas manifestações artísticas parecem não acreditar em sua própria substância, ou na capacidade de sustentar-se como tal, por si só. Por essa razão, recorrem ao discurso da crítica, supostamente especializada, como forma de obter sustentação para sua proposta temática. Daí a proximidade aos sofistas. Enquanto necessitam da construção de um argumento coerente para a manutenção de sua obra, tornam-se reféns da retórica que lhes outorga legitimidade.

Estes são apenas alguns aspectos que podemos delinear nas manifestações artísticas da atualidade. Obviamente, trata-se de um viés limitado que não abrange toda a complexidade e diversidade das estruturas sociais contemporâneas, mas procura traduzir parte da arte que nelas está inserida. Não existe uma regra geral e, sim, tedências predominantes em uma ou outra região. Mas, alguns elementos são recorrentes e, inclusive, incoerentes com o processo civilizatório, dito "evolução humana".
A parcela da população mundial que não dispõe de condições mínimas de sobrevivência, a explosão demográfica nas áreas mais carentes de infra-estrutura, as guerras intermináveis por indefinidas razões e as discrepâncias socio-econômicas, chegam a níveis insustentáveis.
Uma educação laica e emancipadora é essencial para iniciar a reformulação dos paradigmas.
A Arte, por refletir o momento histórico e o contexto socio-cultural, também é afetada pelo dinamismo do mundo contemporâneo, que tem necessidade de crescer para continuar funcionando, num processo conhecido como "efeito bolha-de-sabão".
Esta Arte que procura novas formas de expressão, saindo dos museus e ganhando as ruas, pesquisando novos recursos materiais e abraçando novas causas, vem suprir a necessidade de objetos de culto e a busca por referências iconográficas, volatizados em meio aos fluxos urbanos.
Enfim, tenta encontrar novas maneiras de representar um mundo caótico e traduzir suas incoerências e seu despropósito. (Eduardo Thomé)


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Publicado em 01/08/2005.

Surge um novo espaço para discutir a Arte, sua função e seu alcance no mundo contemporâneo. Mesmo num mundo dominado pela guerra, com crises generalizadas, degradação irreversível do meio ambiente e conflitos étnicos e religiosos, ainda é possível e necessário fazer Arte. É, antes de mais nada, imprescindível acreditar que a humanidade tem cura, que não estamos condenados à extinção, que não dispomos apenas de instintos primitivos de auto-destruição. O progresso tecnológico possibilitou a longevidade com melhoria da qualidade de vida, o aumento de produtividade dos meios de manufatura, a redução do desgaste e a reposição dos recursos naturais, a capacidade de cura de inúmeras doenças e o conhecimento, cada vez maior, dos mistérios do Universo. Porém, esses benefícios não se estenderam a todos. Falta vontade política para efetivar as mudaças necessárias, referentes à alteração de paradigmas. Pois, enquanto essa sociedade apregoar a competitividade como fator primordial, o consumismo como necessidade básica, a multiplicação dos lucros como meta e o produto final em detrimento do processo, teremos uma cultura de descartáveis e continuaremos a produzir lixo tóxico, a devastar o meio ambiente e a denegrir a dignidade humana. (Eduardo Thomé)


Neste primeiro momento, por não haver ainda Editoriais Anteriores, estarei apresentando algumas poesias que fazem parte dos livros mostrados na seção "Obras Publicadas".

"Pôr-do-sol"

Como quando olhava o sol
Pôs-se no poente
Trás às nuvens e edifícios

Dando cor à paisagem
De vermelho tom d'ouro
Olhei o sol outra vez
Que trás do horizonte
Dava ao mundo
Fios de ouro para se apoiar
Inconformados que se fazia noite
Acenderam-se lâmpadas
Desde aqui até o horizonte
Que ficou estrelado de pontinhos brilhantes
E os homens cobertos pelo ouro-dos-tolos
Ofuscados por suas luzes
Não viram as linhas douradas
Que se foram apagando
Para dar lugar à noite
 
"Um simples movimento"

Um simples movimento
Pode ser a solução
Observar um pássaro em vôo
Abrir asas e voar
E de voar com o pássaro
Ser pássaro também
Que pousa no ar na água
E em cada elemento
Simplesmente
Movimento
Nascendo em cada parte
Vivo
Vida
A matéria inanimada
A infinita paciência
De quem pode esperar
Até o fim dos tempos
Consciência
Consideração


"Contigo"

Sinto ter-te causado embaraço
Quando por vezes te abraço
E exponho meus anseios,
Ainda que camuflados,
Ainda que por descuido,
Ainda que não percebas.
Quando de ti me aproximo,
Pareço resfolegar,
Meu coração se acelera,
Deixa o pensamento voar.
Tento a ti me agarrar
Para que não venha a cair,
Mas, se contigo tombar,
Contigo no chão vou rolar,
Contigo no chão vou dormir.
 


"Momentos de Espera"

Abro os braços

Querendo envolver o crepúsculo,
Deixando-me ser envolvido,
Levado pelo vento
Que agita os louros cabelos
Esfumados no céu blue,
Nos montes de algodão
Doce nuvem,
Meiga que me espera.
E te desejo abraçar
Como sinal de plenitude
Derradeira,
Cobrindo cada momento
De espera
Que faz do tempo
Um arrastar
De instantes inúteis.


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